Bolívia: O SALAR de UYUNI e um pouco mais…

Na semana do carnaval 2020, em pleno verão do hemisfério sul, quando as temperaturas são mais altas, mas também é maior a probabilidade de chuvas, finalmente realizei o sonho de conhecer um subestimado país vizinho: a Bolívia.

Laguna Colorada visitada no 2º dia do tour que sai da cidade de Uyuni

No ano de 2010, eu tinha feito um mochilão de inverno pela América do Sul e a viagem foi maravilhosa, exceto por dois eventos. O primeiro foi a descoberta prática do mal de altitude ainda na Argentina. Era dor de cabeça, tontura, falta de ar… A segunda dificuldade foi a baixíssima temperatura no norte do Chile que não permitiu que eu conhecesse alguns lugares no Deserto do Atacama e, pior ainda, me fez abortar os planos de visitar o Salar de Uyuni na Bolívia. Os passeios tinham sido todos cancelados devido aos 25 graus negativos que estavam sendo registradas na região!

Os anos se passaram e a vontade de conhecer o maior salar do mundo, não. Mas ela ficou adormecida e encoberta por outros planos até finalmente acontecer dez anos depois.

A Bolívia é um país alto e isso não deveria ser desconsiderado por nenhum visitante. Contudo, o que mais encontrei foram brasileiros que, ansiosos por conhecer o maravilhoso Salar de Uyuni, acabavam perdendo a oportunidade de conhecer melhor aquele lindo país e ainda ficavam completamente vulneráveis ao mal de altitude.

Neste artigo, eu gostaria de compartilhar com vocês meu roteiro, informações práticas e imagens para nutrir seu desejo de conhecer a Bolívia.

Sucre: 2.810m

Meu primeiro conselho prático é que se ganhe altitude pouco a pouco. Saindo de São Paulo, meu voo ia diretamente para Santa Cruz de la Sierra. Essa grande cidade não estava no meu roteiro, então fiquei ali apenas o tempo necessário para fazer os procedimentos migratórios e pegar um voo para a capital constitucional boliviana: Sucre. Além de bonita, a cidade seria um ótimo ponto de partida para a aclimatação à altitude.

Sucre: Lateral da Igreja San Felipe Neri

Brasileiros não precisam de visto para entrar na Bolívia e podem viajar com o documento de identidade em bom estado (e com menos de 10 anos de emissão).

As empresas com mais voos regionais são a BoA e a Amaszonas. Voei pela primeira e não tive problemas, mas achei o check-in um pouco caótico. A BoA não cobra pela bagagem despachada (uma mala de até 20Kg) e você economiza o IOF na compra da passagem porque eles têm escritório em São Paulo, então a transação não é internacional.

Aeroporto de Sucre

Não há casas de câmbio no aeroporto de Sucre, então a escala em Santa Cruz também deve servir para comprar alguns “bolivianos” (BOB). Esse é o nome da moeda de lá, então, por favor, não pense que é possível comercializar pessoas 😛

Para ir do aeroporto de Sucre para o centro da cidade, peguei uma van (BOB8) que saía bem da frente do edifício. É bem fácil de localizar devido ao diminuto tamanho do aeroporto. Você sai, olha para a direita e já vê as vans estacionadas. Eles põem as malas maiores no teto e levam cerca de 12 pessoas. A distância é significativa, por isso, embora não haja congestionamento, leva-se cerca de 40 minutos.

Sucre: Plaza 25 de Mayo

Chegando na cidade, fui caminhando até o hostel em que me hospedaria. As ruas de Sucre são estreitas e têm mão única, por isso o tráfego era bastante caótico próximo da praça central. As calçadas também são estreitas, então prefira levar uma mochila.

Há igualmente uma farta oferta de táxis e de ônibus, caso você prefira ou não possa caminhar.

Sendo semana do Carnaval, muitas atrações não estavam disponíveis, mas Sucre definitivamente valeu a pena.

Sucre: La Recoleta

Em Sucre, já é possível comprar um pacotinho de folhas de coca por apenas 5 bolivianos (cerca de R$3) e começar a preparar-se tomando um chá. Esse pacotinho foi suficiente para a minha viagem toda – mesmo tomando pelo menos 5 xícaras por dia!

Dois dias na cidade devem ser suficientes para esse primeiro estágio de adaptação e também para visitar alguns pontos que renderão lindos registros. As portas das igrejas, das casas e dos conventos definitivamente merecem a sua atenção. É possível fazer tudo a pé. Só usei o transporte local (micro-ônibus) para ir até a Rodoviária (menos de BOB1).

Sucre: Terraço da Igreja San Felipe de Neri

Recomendo particularmente que se visite a Plaza 25 de Mayo (grátis), o Complexo La Recoleta (grátis) e a Igreja San Felipe de Neri (BOB15) para visitar o terraço.

Sucre: Terraço da Igreja San Felipe de Neri

A temperatura estava agradável durante o dia, mas caía bastante no início da noite e permanecia assim até de manhã. Peguei um pouco de garoa e driblei muitas bexigas de águas jogadas pelas crianças e pelos adultos também. Já era Carnaval na Bolívia!

Potosí: 4.067m

Se você sentiu qualquer desconforto relativo a altura em Sucre, é provável que isso volte a acontecer em Potosí (mesmo depois de já estar se sentindo adaptado). Se você não sentiu nada, agora vai ter uma boa prova de fogo! Então, continuemos tomando nosso chá de folha de coca e evitando grandes esforços.

Igreja de San Lorenzo de Carangas

Potosí fica a umas 3 horas de Sucre (viajando de ônibus). A cidade não é tão pequena, então pode valer a pena descer antes da rodoviária (como fazem quase todos os passageiros) e já pegar um micro-ônibus para o centro. É só perguntar para os locais. Os bolivianos são muito amigáveis.

Encontrei muitos brasileiros chegando em Potosí pela manhã e já partindo à noite para Uyuni. Não faça isso. O centro é uma graça. Parece uma cidade cinematográfica. Além disso, ter tempo de adaptar-se aos mais de 4.000m daqui vai ser precioso para poder aproveitar melhor a viagem pelo Salar de Uyuni.

Rua do centro de Potosí com Cerro Rico ao fundo

Devido ao feriado, não consegui entrar em nenhuma atração, mas afirmo que apenas caminhar pelas ruas estreitas e ver as fachadas já me deixou encantada. Mas devo confessar que o encanto era frequentemente quebrado por uma bexiga de água certeira. Ai! O Carnaval boliviano! hahaha

Eu também fiz o passeio, que dura meio dia, ao Cerro Rico (BOB80) e achei que valeu como experiência. Contudo, quem tiver claustrofobia, doenças respiratórias ou joelhos sensíveis deve pensar duas vezes antes de se aventurar por ali. O Cerro Rico é uma mina que é explorada há séculos e a mineração ainda é uma das principais fontes de renda da Bolívia.

Grupo se preparando para entrar na mina

Duas noites na cidade devem bastar para ver e se adaptar. O trecho até Uyuni (cerca de 5 horas) merece ser feito durante o dia porque é bem bonito. Além disso, chegar no início da tarde na “porta de entrada” do Salar te dará tempo para pesquisar os passeios com tranquilidade.

Uyuni: 3.600m

Brincando no Salar de Uyuni

Depois de Potosí, respirar em Uyuni deve parecer bem mais fácil (exceto pela poeira das ruas).

A cidade é bem mais cara que as anteriores e pode valer a pena comprar alguns itens de mercado e fazer toda a troca de dinheiro antes de chegar aqui.

Uyuni não tem atrativos, mas aproveite sua última noite em ambiente controlado com banho grátis e cozinha. Cheguei ali na terça-feira de Carnaval. Esse dia, felizmente, não é dedicado aos jogos com água (ufa!). Mas há uma tradição ancestral que acontece nesse dia. É o momento de agradecer pelos bens conquistados. Todos lavam e decoram seus carros. Lhamas enfeitadas passeiam elegantes. Muitos fazem churrasco na calçada. Um dia bonito e curioso.

Existem dezenas de operadores turísticos na cidade. Eu escolhi a Andes Salt Expedition pelas avaliações que tinha lido na internet e também porque meus colegas e eu conseguimos negociar um preço bacana (BOB790) pelo passeio de 3 dias e 2 noites.

Pôr do sol no Salar de Uyuni

Eu sinceramente acho que não vale a pena fechar o tour com antecedência maior que essa. Será mais caro e você ainda pode perder a oportunidade de se unir a pessoas que você conhecerá pelo caminho. Em Potosí, eu tinha conhecido várias pessoas no hostel em que fiquei. Vários deles estariam em Uyuni no mesmo tempo que eu e decidimos fazer o passeio juntos. Isso facilitou a negociação do preço e nos garantiu um grupo super divertido.

O segundo dia do passeio é cheio de vulcões e lagoas fabulosas

O passeio foi todo lindo e existem centenas de relatos na internet sobre isso, então vou apenas mencionar o nosso ponto alto. Na segunda noite, ficamos hospedados perto das termas que são normalmente visitadas no terceiro dia pela manhã. Isso permitiu que curtíssimos o local com poucas pessoas e ainda tivéssemos o privilégio de fazer isso sob o céu mais estrelado que eu já tinha visto. Foi maravilhoso. Não houve fotos, então só me resta a memória para eternizar aquele momento.

Quem visita essas piscinas de dia não imagina o que elas são durante a noite S2

No início do terceiro dia, alguns visitantes aproveitam a proximidade e seguem para San Pedro de Atacama. Geralmente, é cobrado um adicional de BOB100 para o transporte até a cidade chilena. Os que voltam para a cidade de Uyuni ainda visitam outras atrações.

De volta à pequena cidade, você pode ficar em algum hotel para descansar da aventura ou já pegar um ônibus noturno para La Paz, por exemplo. Eu voltei para Sucre e, depois de mais uma noite, voei para Santa Cruz de la Sierra e para São Paulo.

Fronteira da Bolívia com o Chile

ROTEIRO RESUMIDO

Dia 1: Voo noturno para Santa Cruz de la Sierra

Dia 2: Voo para Sucre. Passeio a pé pela região da Plaza de Mayo.

Dia 3: Sucre: Plaza de la Recoleta e Terraço do Convento de San Filipe de Neri.

Dia 4: Ônibus para Potosí. Passeio a pé pela região central.

Dia 5: Visita ao Cerro Rico e compra de lanchinhos para o passeio ao Salar de Uyuni.

Dia 6: Ônibus para Uyuni. Pesquisa do passeio para o Salar.

Dia 7: Primeiro dia do Passeio de 3 dias.

Dia 8: Segundo dia do Passeio de 3 dias.

Dia 9: Terceiro dia do Passeio de 3 dias e ônibus para seguir viagem…

Terraço da Igreja de San Felipe de Neri em Sucre

INFORMAÇÕES PRÁTICAS:

– Procure hospedagens que fiquem no centro das cidades, é mais prático e deve sair mais barato.

– Vale mais a pena trocar Reais do que Dólares Americanos. Algumas casas de câmbio (as oficiais) exigem a apresentação de um documento de identificação.

– Nas rodoviárias de Sucre e Potosí, você precisa pagar a taxa de embarque separadamente (BOB2), então fique atento para não se esquecer e acabar se atrasando.

– No aeroporto de Sucre, também é preciso pagar a taxa de embarque separadamente quando você deixa a cidade (BOB11).

– Os banheiros públicos são sempre pagos (BOB1 ou BOB2) e nunca têm sabão para lavar as mãos (tenha seu álcool gel), mas normalmente têm papel higiênico (exceto nos passeios pelo Salar).

– Use o seu Google Maps para salvar os locais mais importantes como hospedagem e rodoviária, por exemplo. Assim vai ser muito mais fácil localizá-los se você não tiver internet (eu nunca tenho! hehe).

– Em qualquer época, leve hidratante para os lábios, lenços humedecidos e óculos de sol!

– Mesmo que faça menos frio no verão, ainda faz muito frio! Em Sucre e em Potosí, as temperaturas caiam muito durante a noite. Leve um bom agasalho!

– No Carnaval, os bolivianos têm a tradição de jogar espuma e bexigas com água nas pessoas. Esteja preparado se decidir visitar o país nesse período 😉

Salar de Uyuni

Sobre a autora:

Mariana Reis Souza (@umabrasileirao) é colaboradora honorária do Blog Viajando pelo Mundo, onde compartilha a sua experiência como viajante solo. Além disso, ela é estudiosa e professora de idiomas, ama gatos e sonha em conhecer o continente gelado.

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